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domingo, 24 de maio de 2015

Descartar, embaralhar você


Toda noite de insônia

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Vinte

- Você tá sempre com uma cara de quem quer me dizer algo.
Estou mesmo. Mas não posso.
Eu seguro, pelo orgulho, pela situação, por respeito - ainda existe algum?
Mas eu até hoje queria poder te falar todas as coisas que passaram por essa cabeçinha sem juízo naquele dia.
"Eu poderia olhar pra esse sorriso pelo resto da minha vida, não só poderia.. como, no momento, era tudo que eu mais queria. Que esse sol que tá raiando pudesse voltar pro lugarzinho dele e me deixasse em paz com você nessa calçada por pelo menos mais umas 5 horas.
Mas ele já apareceu, o ônibus já vai sair, a gente já vai voltar pra Campinas hoje depois do almoço e tem esse monte de coisa que eu poderia te falar, mas não vou. Vamos voltar a vida normal.
Poderia te falar o quanto você é a coisa mais bonita que eu já vi nesses últimos tempos e como bizarramente nas primeiras cinco palavras que a gente trocou eu tive essa certeza absurda de que era você, só você.
Poderia te falar que esse é o sentimento mais inusitado da minha vida e que por mais que eu sempre acreditasse - e sonhasse - com momentos assim, nunca achei que eles existissem. Nunca achei que dois dias mudassem uma vida.
Poderia te falar como até hoje eu não me conformo com essa injustiça e de como a vida curtiu pregar essa peça comigo assim tão sem graça. E que até hoje é meio impossível evitar hora ou outra procurar saber como você tá.
Poderia falar que é só você tomar coragem, me pedir e eu vou. Vou quando você chamar.
Poderia falar que mesmo assim, não me arrependo de nada.
E que você me mostrou que as coisas acontecem quando a gente não espera, não adianta.
Poderia falar tudo isso.
Mas não vou."

Às escolhas erradas, tão erradas e certas.
A esse mundo tão descoordenado.

Porque eu sofreria por você

Todos os dias me falta algo
Me falta a mensagem na madrugada cheia de álcool e mentiras sinceras 
Me falta aquela implicância tão cheia de amor só você sabe fazer
Me falta a piada - sem graça - que me faz sorrir por horas
Me falta aquela boa dica de filme pro fim de semana
E o convite pra assistir junto - os bons, os ruins e mais ainda, os péssimos, aqueles que você acha que eu vou gostar mais.
Me falta saber do seu dia
Dos problemas, das alegrias, das queixas, das pequenas conquistas
Me falta o vento no cabelo, olhando pela marginal que passa
E a sensação de que tudo é possível
Me falta você

Mas também o que é que eu vou fazer?

Não me falta nada, tenho eu e o mundo.

domingo, 5 de outubro de 2014

Gran Reserva

O vinho diminuindo no copo, o álcool subindo no sangue, as lembranças surgindo na memória
Saúde, saudade
De cor vermelha dilacerante
De cor púrpura como um bom vinho
O que sobra nessa noite vazia
É o vento lá fora
É só o vento lá fora
Das cobertas, lençóis, fronhas e travesseiros
Sobra o frio
Sobra o cansaço
Sobra essa apatia insaciável do mundo
Dos outros
O inferno são os outros
Já diziam
Sim, faz tanto frio
E sim, faz tanto tempo
Mas de que importa
É só o vento lá fora
É sempre só o vento lá fora
Não adianta dormir
Que a dor não passa
Ela fica
E em cada manhã
Ela morre
Mas no fundo, sempre fica.


Com a ponta dos dedos

A sensação era estranha. De tão nova, se fez interessante. Por que não havia provado isso antes? Nunca tinha pensado que algo tão besta seria tão intrigante. 
As pontas dos dedos roçavam sua barba e naquele ir e vir das mãos, algo ali parecia tão certo quanto a sua visita. É um homem, foi o primeiro pensamento. A barba divide os homens dos meninos. Como não suspeitou disso antes? 
A cada minuto e a cada toque o pensamento perdia um pouco do sentido, se entregava cada vez mais aquele misto de sensações. Desejos? Vontades. Vontade de passar dias com os lábios colados naquele deslizar de mãos pelo rosto sentindo a aspereza na ponta dos dedos.
Perdida, sem saber a hora ou o lugar, aceitava aquela coisa toda como uma dessas revelações que tantos gritam por aí. Meio inexplicável, aquele arranhar ganhou meu rosto, meu pescoço, todo o corpo, sem pedir licença. 
A barba define os homens me disseram. Carrega com ela os pesos, as inseguranças vencidas, as batalhas ganhas, os corpos explorados.
E vez ou outra me pego concordando com isso. 
Fica a lição aos meninos: que aprendam cedo que não adianta carros, dinheiro, status, braços malhados. Mais barba, por favor.

Café sem açúcar

Entrelaçados, no meio de uma confusão de pernas e lençóis, os olhinhos verdes, aqueles que ficam pequenos toda vez que você sorri, me olhavam daquela maneira que só eles sabem
- O que foi?
- Que foi o que?
- Por que você tá me olhando? Sabe que eu tenho vergonha
- Te admirando 
As bochechas sempre ficavam mais rosadas quando você me olhava assim. As bocas, como ímãs, nunca resistiam a se juntar e ficar coladas assim por todo tempo que achassem necessário. Abraçados, beijados, deitados, com o rosto quente e com aquele sorriso sem dentes que mostravam muito mais, esses eram meus momentos preferidos.
O filme havíamos perdido, o almoço atrasado, a volta adiada, nada importava muito mais naqueles momentos, contanto que tudo aquilo pudesse durar um fim de semana, um mês, uma vida.
E hoje, na memória tão congestionada, na bagagem tão grande nas costas, são essas as lembranças que eu escolhi guardar. Não se sabe se os olhinhos verdes continuam a sorrir daquela maneira. Ingênua. Feliz. Como se nada no mundo pudesse fazer mal algum. 
Se não tiver, a gente inventa. Afinal, foi inventando tudo que a gente aprendeu a viver.

domingo, 8 de junho de 2014

Deixa ser

Te ver assim de terno mexeu com os instintos mais primitivos do meu inconsciente, me peguei totalmente sem querer pensando em como você tinha virado assim esse tão bom partido. É o tempo, é a saudade, não é possível.. Esquece isso, menina! Desculpa, desculpa, foi só um lapso, jamais o veria de outra forma, apenas um bom amigo.
Já me disseram uma vez que o álcool, só o álcool, é detentor de todas as verdades. É uma coisa totalmente proporcional, quanto mais tempo ao lado dele, mais verdadeiras são as conversas, as relações, os olhares. Desproporcional a ele somente aquele tal de bom senso tão apreciado nos momentos de sobriedade. Foi exatamente naquele ponto preocupante que você me pediu pra te ajudar a despistar aquela paquera chata que te perseguia a noite toda. Mas é claro! Inicialmente era um abraço, um teatrinho romântico, uma piada engraçada daquelas que a gente daria muita risada sóbrios. Mas sua mão era tão firme, que perfume bom, esse abraço sempre foi assim tão apertado? As coisas foram acontecendo num ritmo que eu não sei bem, me perdi na hora que você falou no meu ouvido algo sobre aquilo ser estranho. Estranho, excitante, novo, engraçado. 
Me perdi naquele ponto.
Não me achei mais.